O maa'ser e a Brit Chadashá - O dízimo e a nova aliança
Muitos acham que o dízimo será uma fonte de riqueza. Por
outro lado, os mais esclarecidos, vêem o dízimo como algo que já passou, e não
se refere aos dias de hoje.
Sentem-se desconfortáveis em dar qualquer contribuição
financeira significativa a um ministério. Veja como pensa os judeus natzari
sobre o dizimo!
Em meio a tanta confusão, é necessário que façamos um estudo
sobre o dízimo, a fim de evitarmos cair em um dos dois extremos.
Em Que Consiste o Dízimo?
É 10% de TUDO o que recebemos por QUALQUER trabalho (a Torah
torna isto claro ao citar diversos exemplos de trabalhos diferentes). Pela
Torah, fica estabelecido que seja 10% do líquido que obtemos, ou seja, do valor
que recebemos pelo trabalho, menos o que gastamos para exercer o trabalho, e
não do ganho bruto.
Alguns tentam alegar que o dízimo seria só de produtos agropecuários.
Contudo, isto não se verifica nas Escrituras, pois na B'rit Chadashá
encontramos um parush (fariseu) dizendo:
"Jejuo duas vezes na semana, e dou o dízimo de tudo
quanto ganho.” Luke (Lucas) 18:12
Vemos aqui que a concepção de dízimo sempre foi de fato algo
acerca de nossa renda deum modo geral
Dízimo é Tudo Uma Coisa Só?
É aqui que começa o problema. A grande maioria das igrejas
não menciona, mas, na ausência do Beit HaMikdash (o Templo), existem PELO MENOS
quatro formas diretamente mencionadas pela Torah. Além desta, com um estudo
mais aprofundado, podemos encontrar pelo menos mais três:
- Usos do Dízimo Diretamente Mencionados pelas Escrituras:
#1 – Para o sustento da obra do Templo (sacerdotes e
levitas)
#2 – Para o sustento da obra numa congregação
#3 – Para o sustento de necessitados
#4 – Para celebração perante o Eterno, preferencialmente com
a família
A maioria das igrejas ensina apenas os tipos #1 e #2
(principalmente o #2 por motivos óbvios), e no máximo pode se referir ao tipo
#3. O tipo #4 é praticamente desconhecido pela grande maioria dos seguidores de
Yeshua.
- Usos do Dízimo que Podemos Concluir a Partir das
Escrituras:
#5 – Para nos ajudar a praticarmos atos de misericórdia
#6 – Para adquirirmos conhecimento do Eterno
#7 – Para cumprirmos outras mitsvot (mandamentos)
Estas outras 3 formas de usarmos o dízimo que normalmente
são completamente ignoradas pela grande maioria das igrejas. Vamos analisar
cada uma delas. Porém, antes disto, é importante que esclareçamos a questão da
validade do dízimo para os dias de hoje.
Se Não Há Templo, Posso Dar o Dízimo?
Alguns argumentam que dízimo é coisa de judeu, visto que
está definido na Torah que foi dada por intermédio de Moshe (Moisés). Outros
dizem que o dízimo não precisa ser dado porque o Beit HaMikdash (Templo) não
está de pé.
Contudo, ambas as afirmações, ao nosso ver, são equivocadas.
A primeira já está errada porque parte do pressuposto de que a Torah não seria
válida para nós, o que é um grande absurdo, mas que não será tema deste estudo
em particular. Em segundo lugar, a prática do dízimo é primeiro encontrada em
Bereshit (Gênesis) 14:30, onde Avraham
(Abraão) dá o dízimo a Malki-Tsedek (Melquisedeque).
O princípio do dízimo foi iniciado por Avraham, que
espiritualmente é tido como pai daqueles que depositam sua fé no Eterno. Todos
os crentes em Yeshua devem seguir o exemplo de Avraham.
Porém, existe aqui o primeiro grande furo na lógica de
muitas igrejas. Antes de Moshe (Moisés), o dízimo não é relatado na Bíblia como
sendo uma mitsvá (mandamento). Portanto, ou a Torah ainda é válida (e aí temos
que seguir também os outros mandamentos), ou o dízimo também foi abolido. É
preciso haver coerência. Se uma igreja defende que a Torah foi abolida e ainda
assim cobra o dízimo, está sendo hipócrita. Se o dízimo é definido na Torah,
que direito temos de escolher aquilo que é conveniente da Torah e aplicar aos
dias de hoje, ignorando o restante? Isto é zombar do Eterno!
Analisando as Diversas Formas de se Aplicar o Dízimo
Forma #1 – Para Sustento da Obra no Templo
Assim diz a Torá a respeito da herança da tribo de Levi: "Porque
os dízimos que os filhos de Israel oferecerem ao Senhor em oferta alçada, eu os
tenho dado por herança aos levitas; porquanto eu lhes disse que nenhuma herança
teriam entre os filhos de Israel." Bamidbar (Números) 18:24 Somente os da
linhagem de Aharon (Aarão) atuavam como sacerdotes no Templo. Cabia, porém, aos
levitas os serviços em geral que eram relacionados com o Templo. Normalmente, o
dízimo era repartido entre eles. A décima parte do dízimo (portanto 1%) era
entregue pelos levitas aos cohanim (sacerdotes), em oferta ao Eterno: "Também
falarás aos levitas, e lhes dirás: Quando dos filhos de Israel receberdes os dízimos,
que deles vos tenho dado por herança, então desses dízimos fareis ao Senhor uma
oferta alçada, o dízimo dos dízimos." Bamidbar (Números) 18:26 Este era o
conceito original da parte dos dízimos que cabia aos levitas e sacerdotes. Contudo,
na ausência do Beit HaMikdash (Templo), e praticamente todo o seu sistema religioso,
não é alternativa viável neste momento.
Forma #2 – Para Sustento da Obra na Congregação
E o que dizer da congregação? Será que os textos da Torah
aplicados aos sacerdotes e levitas se aplicariam também a quem trabalha na
congregação? Lembremo-nos de Malki-Tsedek (Melquisedeque). Ele também recebeu
dízimos de Avraham. O próprio rabino Sha'ul (Paulo) usa um conceito rabínico
chamado Kal v'Chomer (Leve e Pesado) para argumentar que o sacerdócio de
Malki-Tsedek é superior ao de Levi, e curiosamente acaba usando o dízimo como
um de seus argumentos: "E, por assim dizer, por meio de Avraham, até Levi,
que recebe dízimos, pagou dízimos, o quanto ele estava ainda nos lombos de seu
pai quando Malki Tsedek saiu ao encontro deste." Ivrim (Hebreus) 7:9-10 Portanto,
podemos concluir pelo menos Kal v'Chomer que se Levi é digno de receber dízimos,
quanto mais digno ainda é Malki-Tsedek (Melquisedeque). Tanto no caso de Levi
quanto no de Malki-Tsedek (Melquisedeque), o dízimo é dado como retorno por trabalhar
no serviço do Eterno. Então podemos chegar a duas conclusões:
1) Sacerdotes da ordem de Aaron ou da ordem de Malki-Tsedek
(Melquisedeque) podem receber dízimos;
2) Eles servem como fonte de renda dos sacerdotes que agem
no serviço do Eterno. Bem, o Messias é nosso sacerdote eternamente pela ordem
de Malki-Tsedek (Heb. 5:6). Ora, se o Espírito do Eterno concede a algumas
pessoas a autoridade para trabalhar no serviço do Eterno em nome do Messias,
então estas pessoas também estão fazendo o trabalho do Eterno em nome dAquele
que é da ordem de Malki-Tsedek. Pela Torá, estas pessoas podem receber dízimos.
A B'rit Chadashá (Novo Testamento) também dá indícios de
apoiar este conceito. Aqueles que trabalhavam na obra do Eterno eram mantidos
por dízimos e ofertas da comunidade primitiva. Assim diz o rabino Sha'ul
(Paulo): "Pequei por acaso, humilhando-me a mim mesmo, para que vós
fôsseis exaltados, porque de graça vos anunciei as Boas Novas de Elohim? Outras
kehilot despojei, recebendo delas salário, para vos servir; e quando estava
presente com vocês, e tinha necessidade, a ninguém fui pesado; porque os
irmãos, quando vieram da Macedônia, supriram a minha necessidade; e em tudo me
guardei, e ainda me guardarei, de vos ser pesado." 2 Co. 11:7-9 - há
passagens similares em 2 Co. 12:13, 1 Ts 2:9, etc.
Observe que Sha'ul fala de um salário. Como pode haver
salário se a kehilá (congregação) não der dízimos e ofertas? Lembremo-nos ainda
que nosso Messias, ao dar aos seus discípulos a ordem de irem de casa em casa,
determinou que eles deveriam ser mantidos por aqueles a quem estivessem
pregando a Palavra: "Ficai nessa casa, comendo e bebendo do que eles
tiverem; pois digno é o trabalhador do seu salário. Não andeis de casa em
casa." Luke (Lucas) 10:7, semelhante a 1 Tim 5:18 O único tipo de salário
definido nas Escrituras para o serviço na obra do Eterno é o dízimo. Alguns
podem perguntar: mas se era tão óbvia assim a questão do dízimo, porque Sha'ul
preferia evitar ser um fardo para as comunidades onde pregava? A resposta é
simples: porque havia muitos crentes gentios. Eles conheciam pouco da palavra e
conseqüentemente não estavam acostumados com os princípios do dízimo. Portanto,
Sha'ul não poderia simplesmente dizer a eles "é a lei", visto que o
conselho de Jerusalém (Atos 15) havia decidido que os gentios não poderiam ser
"forçados" a viver de acordo com a Torá. 1 Co. 9:13-14 é ainda mais
claro sobre os direitos daqueles que vivem para a ministração na obra do
Eterno: "Não sabeis vós que os que administram o que é sagrado comem do
que é do Beit HaMikdash? E que os que servem ao altar, participam do altar?
Assim ordenou também o Senhor aos que anunciam as Boas Novas, que vivam das
Boas Novas." 1 Co. 9:13-14
Um Alerta Importante
Contudo, assim como havia dízimos que não eram dados aos
levitas, conforme nos diz a Torá e veremos mais adiante, não é lícito também a
quem trabalha na obra impor ou mesmo pregar que o dízimo integral seja dado
para sustento da congregação, pois o dízimo também tem outras finalidades.
Pregar que o dízimo integral deve ser dado para sustento da congregação é não
só ilícito, como se caracteriza como roubo aos necessitados (principalmente
viúvas e órfãos), e a mão do Eterno pesará sobre quem fizer tal coisa, pois as
Escrituras dizem que o Eterno abomina quem devora os necessitados (vide
Matitiyahu / Mateus 23:14)
Forma #3 – Para o Sustento de Necessitados
A Torá também menciona que o dízimo deve ser usado como
auxílio para o sustento de necessitados. A Torá cita explicitamente viúvas,
órfãos, e estrangeiros, que eram aqueles que normalmente passavam dificuldade
na época. Contudo, aplicando a quarta lei de Hillel (Binyan Ab Mishene Ketivum
– vide artigo sobre como interpretar as Escrituras como um judeu), podemos
concluir que "viúva" e "órfão" referem-se a todos os necessitados.
Da mesma forma, aplicando a mesma lei de Hillel, podemos
concluir que o "se alimentar" e o "se satisfazer"
referem-se ao sustento. Vejamos o que diz a Torah a respeito: "Ao fim de
cada terceiro ano levarás todos os dízimos da tua colheita do mesmo ano, e os depositarás
dentro das tuas portas. Então virá o levita (pois nem parte nem herança tem contigo),
o peregrino, o órfão, e a viúva, que estão dentro das tuas portas, e comerão, e
fartar-se-ão; para que o Eterno teu Elohim te abençoe em toda obra que as tuas
mãos fizerem." Devarim (Deuteronômio) 14:28-29 Podem dizer o que quiserem
os homens, mas a Bíblia é claríssima. O dízimo também é fonte de renda para os
necessitados. Repare que não basta dar à congregação e "lavar as mãos"
por achar que a congregação fará algo pelos necessitados: a Torah está dando uma
instrução específica para o povo aqui.
Um Aviso Importante
Portanto, pelo texto acima, vemos que é nosso dever separar
parte do dízimo para darmos a pessoas necessitadas, quer diretamente quer
através de instituições de caridade. O importante aqui é o princípio: o dízimo
é do Eterno, e Ele ordena que o usemos também para o sustento dos necessitados.
Forma #4 – Para Celebração Perante o Eterno
Uma outra forma praticamente desconhecida é a do uso em
celebração perante o Eterno. Podemos aplicar parte dos dízimos para estarmos
reunidos com nossos familiares, celebrando ao Eterno. A Torah menciona explicitamente
uma refeição, pois culturalmente para um judeu não há festa sem refeição. Veja
o que diz a Torah:
"E, perante o Senhor teu Elohim, no lugar que escolher
ali fazer habitar o seu nome [isto é, o Templo de Jerusalém], comerás os
dízimos do teu grão, do teu mosto e do teu azeite, e os primogênitos das tuas
vacas e das tuas ovelhas; para que aprendas a temer ao Senhor teu Elohim por
todos os dias. Mas se o caminho te for tão comprido que não possas levar os dízimos
[até o Templo de Jerusalém], por estar longe de ti o lugar que o Senhor teu
Elohim escolher para ali por o seu nome, quando o Senhor teu Elohim te tiver
abençoado; então vende-os, ata o dinheiro na tua mão e vai ao lugar que o
Senhor teu Elohim escolher. E aquele dinheiro darás por tudo o que desejares,
por bois, por ovelhas, por vinho, por bebida forte, e por tudo o que te pedir a
tua alma; comerás ali perante o Senhor teu Elohim, e te regozijarás, tu e a tua
casa." Devarim (Deuteronômio) 14:23-26 Como estamos bem longe de
Yerushalayim (Jerusalém) e como o Beit HaMikdash (Templo) não está presente,
podemos usar esta parte do dízimo para celebração ao Eterno com nossa família,
conforme diz acima a Torah.
Qual o propósito disto? Vemos que a família é unidade
imprescindível nos planos do Eterno, e uma família que celebra junta perante o
Eterno cria para si mesma laços de união extremamente fortes, além ser uma
oportunidade para que os pais possam dar um excelente exemplo para os filhos.
Dica
Isto posto, recomendamos (embora não seja obrigatório pela
Torah) que parte do dízimo seja usado para custear despesas com a celebração
dos festivais bíblicos. Por exemplo, separe uma parte do dízimo para que os
jantares de Shabat seja bastante agradável para a família, para que as crianças
se alegrem, e para fortalecer a união da família.
Outra forma interessante é na celebração de outras festas
bíblicas, tais como o Pessach, Chanukah, entre outras. Em suma, podemos aplicar
o dízimo nestas festas bíblicas, que unem a família e honram ao Eterno.
Forma #5 – Para nos Ajudar a Praticarmos Atos de
Misericórdia
Agora entramos nas 3 formas que não são tão explícitas, e
que requerem uma análise mais cuidadosa das Escrituras, embora não sejam em absoluto
menos válidas do que as demais.
A primeira destas seria para nos ajudar a praticarmos atos
de misericórdia. O que queremos dizer com isso?
Muitas vezes, para ajudarmos uma pessoa, precisamos de
recursos financeiros. E tais recursos podem vir do dízimo! Um exemplo disto
seria para visitar pessoas necessitadas, principalmente quando o deslocamento é
maior e requer um certo valor. Ou precisamos comprar remédios para os enfermos,
entre outras coisas. Aqui se encaixa também a pregação das Boas Novas de
salvação, que é o maior ato de misericórdia que podemos praticar. Podemos,
portanto investir parte do dízimo para adquirirmos bíblias para distribuirmos,
ou material adequado, ou até mesmo para ajudar a sustentar àqueles que propagam
a mensagem das boas novas. Mas de onde tiramos essa conclusão? Tudo isso é
muito bonito, mas de nada vale se não provarmos isto nas Escrituras. Portanto,
vamos à elas: Como vimos anteriormente, parte do dízimo era oferecida em
sacrifício de oferta ao Eterno no Beit HaMikdash (Templo). Contudo, vemos em
Hoshea (Oséias) o seguinte:
"Pois misericórdia quero, e não sacrifícios; e o
conhecimento de Elohim, mais do que os holocaustos." Hoshea (Oséias) 6:6
Aplicando a mesma regra de Hillel, Kal v'Chomer (vide artigo
sobre como interpretar as Escrituras como um judeu), sabemos que:
- O dízimo era usado para ofertas de sacrifício
- O Eterno deseja misericórdia mais do que ofertas de
sacrifício
Logo, a misericórdia é maior do que as ofertas Portanto,
podemos concluir que se podemos dar o dízimo para ofertas de sacrifício, quanto
mais legítimo é aplicar o dízimo para atos de misericórdia. A Bíblia é bem
clara!
Dica Importante
Recomendamos portanto que parte do seu dízimo seja separada para
esta finalidade: visitações, pregação das boas novas, materiais, etc. Caso você
não esteja diretamente envolvido nestas atividades, procure ajudar a alguém que
esteja.
Forma #6 – Para Adquirirmos Conhecimento do Eterno
O raciocínio para chegarmos à forma #6 é muito semelhante ao
da forma #5:
"Pois misericórdia quero, e não sacrifícios; e o
conhecimento de Elohim, mais do que os holocaustos.” Hoshea (Oséias) 6:6
Aplicando a Kal v'Chomer, sabemos que:
- O dízimo era usado para ofertas de holocausto
- O conhecimento do Eterno é mais desejável a Ele do que
holocaustos
Logo, o conhecimento do Eterno é maior do que as ofertas
Portanto, podemos concluir que se podemos dar o dízimo para ofertas de
holocausto, quanto mais legítimo é aplicar o dízimo para adquirirmos
conhecimento do Eterno.
O que queremos dizer com adquirir conhecimento do Eterno? É
tudo aquilo que contribui para que o seu conhecimento de Elohim, e da Sua
Palavra, possam aumentar.
Ou seja, você pode usar parte do dízimo para contribuir com
o sustento de obras de ensino, ou para adquirir livros, bíblias, etc. Você pode
ainda usá-lo para fazer cursos, entre outras coisas, desde que contribuam para
a aquisição de conhecimento do Eterno
Dica Importante
Separe parte do dízimo para que você possa estar sempre
empregando no estudo da Palavra. Esteja sempre lendo um bom livro, ou fazendo
um bom curso, ou artigos. Pois tudo pode ser tirado de nós, menos o nosso
conhecimento.
Forma # 7 – Para Cumprimos Outras Mitsvot (Mandamentos)
Uma outra análise mais profunda demonstra que podemos
aplicar parte do dízimo para podermos cumprir outras mitsvot (mandamentos).
Como podemos chegar a tal conclusão? Tehilim (Salmos) diz: "Pois tu não te
comprazes em sacrifícios; se eu te oferecesse holocaustos, tu não te deleitarias"
Tehilim (Salmos) 51:16 Por que o salmista está dizendo que o Eterno não se
alegra com holocaustos? No versículo posterior vemos que, na realidade o Eterno
está solicitando ao povo um sacrifício de arrependimento. Ou seja, de nada
adianta trazer ofertas ao Eterno se não nos arrependermos de nossos pecados. Mas
qual a relevância disto para nós? Ora, sabemos pela B'rit Chadashá (Novo Testamento)
que: "...o pecado é a violação da Torah." Yochanan Alef (1 João) 3:4 Portanto,
podemos concluir que o cumprir a Torah é superior a sacrifícios. Aplicando a mesma
lógica do Kal v'Chomer, podemos concluir que se um dízimo pode ser usado como
oferta de sacrifício, quanto mais legítimo é o seu uso para cumprir as mitsvot (mandamentos)
do Eterno.
Mas como assim comprir as mitsvot? Um exemplo interessante
que certa vez ouvi de um rabino é que uma grande mitsvá da Torah é emprestar
dinheiro a alguém, sem cobrar juros. Esse rabino me sugeriu então que de parte
do dízimo poderíamos fazer um fundo para emprestar dinheiro às pessoas sem
cobrar juros. É uma idéia interessante. Parte do dízimo poderia ser empregada,
por exemplo, para colocarmos mezuzot nas portas (vide Devarim/Deuteronômio 6),
ou para adquirirmos um tefillin, ou ainda para realizarmos a b'rit milah
(circuncisão).
Com Tantas Formas de se Aplicar o Dízimo, o que eu Faço?
A grande dúvida agora é: se há tantas formas de se aplicar o
dízimo, o que devemos fazer? Não necessariamente precisamos aplicar todas elas
mensalmente. Contudo, as quatros primeiras formas são imprescindíveis.
Como a primeira não pode ser cumprida, devemos, no mínimo,
separar o dízimo em três partes (não necessariamente partes iguais), e buscar do
Eterno sabedoria para administrar tais partes. Principalmente as #2 e #3 – em
hipótese alguma podemos negar a um líder de comunidade o seu sustento, nem
deixarmos de arcar com nossa responsabilidade perante o necessitado.
Contudo, não se esqueça das outras formas possíveis de se
aplicar o dízimo. E lembre-se sempre de que nossas ações devem ser regidas
pelas duas mitsvot (mandamentos) mais importantes da Torah: o amor ao Eterno e
o amor ao próximo.
Como Fica a Forma #2 se eu Participo de Vários Grupos?
Muitos seguidores de Yeshua participam de mais de um mistério.
Não é nosso objetivo, com este estudo, fazer análise desta participação, se é boa
ou ruim, ou das vantagens e desvantagens de se filiar a mais de um ministério.
Isto seria tópico para outro estudo. Mas a questão é lidar com o fato. E a
realidade é que existem pessoas que participam de mais de um ministério.
Como devem, então, proceder? Ora, o Eterno espera que usemos
o bom senso de acordo com os exemplos contidos em sua Palavra. Reparem que a
Torah deixa claro que o dízimo que cabia aos levitas era repartido entre eles.
Além disto, se algum ministério contribui para o seu crescimento na palavra do
Eterno, também é digno de salário. Desta forma, podemos concluir que a forma #2
de se aplicar o dízimo daqueles que participam de mais de um ministério deve
ser distribuída de forma igual ou proporcional entre os diferentes ministérios
que o sustentam. Fazer uso de um ministério e não o suportar com o sustento é
negar o salário de um trabalhador, o que é francamente contra a Palavra do
Eterno.
Observe ainda que não cabe a nós julgarmos se um ministério
'precisa ou não' de sustento. No templo, isto era tratado diretamente entre o
Eterno e os Levitas. Da mesma forma, se um ministério é muito abundante
financeiramente, deve seguir a direção do Eterno para amparar ministérios menos
favorecidos. Esta é a noção de corpo que deve haver entre ministérios. Contudo,
esta é tarefa para quem está a frente dos ministérios. Não cabe a nós julgarmos
se algum ministério 'precisa mais ou menos que outro'. Salário é salário. Se
houve trabalho, tem que haver salário, conforme determinam as Escrituras do
Altíssimo.
Vou Ficar Rico Dando o Dízimo?
Algumas seitas usam Malaquias 3:10 para 'arrancar' o dízimo
das pessoas.
Primeiramente, deve ficar bastante claro que nosso objetivo
ao dar o dízimo deve ser o princípio da obediência por amor ao Eterno.
Yeshua deixou claro que qualquer mandamento que nós
cumprimos só é válido se feito única e exclusivamente por amor a YHWH (ou ao
próximo):
"Rabino, qual é a grande mitsvá na Torah? Respondeu-lhe
Yeshua: Amarás a Yahweh teu Elohim de todo o teu coração, de toda a tua alma, e
de toda sua força. Esta é a grande e primeira mitsvá. E a segunda, semelhante a
esta, é: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. Destas duas mitsvot dependem
toda a Torah e os profetas." Mt. 22:36-40
O Eterno é dono do mundo. Não precisa fazer negócio com
ninguém. Ou damos o dízimo por amor a Ele, estaremos dando em vão. Em segundo
lugar, em Malaquias 3:10 encontramos:
"Trazei todos os dízimos à casa do tesouro [do Templo
de Jerusalém], para que haja mantimento na minha casa, e depois fazei prova de
mim, diz o Elohim dos exércitos, se eu não vos abrir as janelas do céu, e não
derramar sobre vós tal bênção, que dela vos advenha a maior abastança."
Malaquias 3:10
É forçar a barra ao extremo querer aplicar o versículo acima
à congregação local. Não há nenhuma relação entre a congregação local e o Beit
HaMikdash (Templo). A única analogia mais prática que encontramos da respeito
do Templo refere-se a nós mesmos, pois somos templos da Ruach HaKodesh
(Espírito Santo). Em nenhum momento na Bíblia a congregação local substituiu o
Templo.
Em terceiro lugar, com que autoridade a congregação local
pode se auto-proclamar "casa do tesouro"? Se não está na Bíblia (como
neste caso), não há espaço em nossa fé para invenções.
Em quarto lugar, a própria Torah já nos ensina o que fazer
em caso de ausência do Templo:
"E, perante o Senhor teu Elohim, no lugar que escolher
ali fazer habitar o seu nome [isto é, o Templo de Jerusalém], comerás os
dízimos do teu grão, do teu mosto e do teu azeite, e os primogênitos das tuas
vacas e das tuas ovelhas; para que aprendas a temer ao Senhor teu elohim por
todos os dias. Mas se o caminho te for tão comprido que não possas levar os
dízimos [até o Templo de Jerusalém], por estar longe de ti o lugar que o Senhor
teu Elohim escolher para ali por o seu nome, quando o Senhor teu Elohim te
tiver abençoado; então os vende, ata o dinheiro na tua mão e vai ao lugar que o
Senhor teu Elohim escolher. E aquele dinheiro dará por tudo o que desejares,
por bois, por ovelhas, por vinho, por bebida forte, e por tudo o que te pedir a
tua alma; comerás ali perante o Senhor teu Elohim, e te regozijarás, tu e a tua
casa." Devarim (Deuteronômio) 14:23-26
Logo, é completamente ilegítimo, pela própria Bíblia, o uso
por parte de uma congregação de Malaquias 3:10 para pedir o dízimo a seus
fiéis. A Palavra do Eterno não muda e não mente.
Mas então o que Concluir Sobre Malaquias 3:10?
Mesmo sem o Beit HaMikdash (Templo), a promessa do Eterno
para os que são fiéis ao dízimo permanece, pois Ele não muda. Contudo, não é
uma promessa de riquezas.
O Eterno promete "B'rachah" àqueles que dão o
dízimo. B'rachah, no Hebraico, pode significar bênção, mas neste contexto é
melhor entendido como abundância de recursos.
Observe o contexto, se continuar a leitura, você verá que o
Eterno está prometendo campos abundantes e frutíferos. Campos precisam ser
trabalhados. O Eterno não promete a ninguém riqueza ou dinheiro fácil. O Eterno
não prometeu que enviaria legiões de anjos com tratores para trabalhar o campo
por nós. A promessa é de que Ele manterá a sua fonte de renda frutífera. Isto é
muito diferente de pensar que ficaremos ricos. Não demos ouvidos à heresia da
teologia da prosperidade.
Conclusão
Esperamos com este artigo despertar os seguidores de Yeshua
sobre a verdade acerca do dízimo. Sabemos que este artigo vai contra os
interesses pessoais de alguns grupos, porém não nos preocupamos com a aprovação
de homens. Infelizmente, algumas passagens das Escrituras que apresentamos aqui
não costumam ser pregadas em certas igrejas. Encorajamos portanto a todos os
leitores a verificarem cada passagem das Escrituras que se encontram neste
artigo, e tirem suas conclusões sobre o que está sendo apresentado.
Leia mais:
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